
E então? Como vai passando o mercado imobiliário brasileiro? Muito bem, obrigado!
Não há outra resposta, a não ser esta, para o que vemos no cenário nacional. Expansão, vendas aceleradas, expectativa de investimentos grandiosos – até o Donald Trump Jr, filho do megaempresário americano, aterrissou por aqui recentemente, trazendo embaixo do braço um plano de negócios que pode render U$ 5 bilhões. Melhor, impossível!
As preocupações existem, talvez por haver no imaginário dos brasileiros a lembrança de que após a bonança também pode vir a tormenta, como resquício do medo de quem já penou com hiperinflação, confisco de poupança, juros exorbitantes, controle do FMI e outros revezes da política econômica num passado ainda recente na memória da maioria.
E um dos fatos que a mim preocupa, em especial, é a disparada dos preços dos imóveis e com tendência de crescimento, por mais que isso possa parecer impossível. Mas, enquanto houver demanda, os preços vão continuar nessa festança, cumprindo inexoravelmente o princípio basilar que determina: se há quem pague, então está tudo bem!
Entretanto, vale acender a luz de alerta para o crescente endividamento das famílias, principalmente porque se tratam de dívidas a longo prazo, como prestações de financiamento de imóveis e veículos, que vão abocanhar parte dos salários já comprometidos com outras obrigações prioritárias como alimentação, plano de saúde, etc.
Nesse passo, embora ainda não exista motivo para se falar em estagnação do varejo, a grande expansão do crédito direcionada para a compra de imóveis e veículos não deixa de tirar espaço de outras modalidades de financiamento, deixando disponível menos dinheiro para parcelar produtos como móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos. Ou seja, compra-se a casa e abre-se mão da mobília, ou do microondas e lavadora de roupas, quem sabe?
Os bancos ainda não mostram sinais de preocupação com inadimplência, embalados pela estabilidade da economia e geração de emprego e renda, que julgam suficientes para alicerçar as operações de crédito a longo prazo, sem que isso venha a sofrer abalos significativos no futuro. Já há quem teorize a situação como um “processo de aprofundamento financeiro”, a exemplo do que ocorre nos países desenvolvidos.
Afinal, hoje alcançamos o posto de 8ª economia do mundo, e isso não é pouco. Aliás, superar a Espanha, mesmo quando ela atravessa uma má fase, sempre será um feito bem recebido por todos nós, brasileiros, ainda com os pés no Terceiro Mundo.
De olho nessa situação confortável, de crescimento e franca expansão, está o resto do mundo. O Deutsche Bank começou a cobrir as ações de cinco incorporadoras brasileiras: MRV, PDG, Rossi, Gafisa e Cyrela. E seus principais analistas recomendam a compra das três primeiras, mas se rendem ao potencial de valorização dos papéis da MRV, à qual conferem a distinção de ser a melhor aposta entre as incorporadoras brasileiras. Palavra de analista alemão, de olho no mercado brasileiro.
Da mesma forma, artigos do Financial Times e Wall Street Journal vem enaltecendo o brilho da nossa economia, que consideram passar por um momento excepcional. E passa, mesmo.
Fazendo coro ao otimismo que os analistas estrangeiros tem demonstrado em relação ao momento brasileiro, estão alguns executivos e diretores de grandes empresas do setor da construção, que se dizem confiantes na estabilidade econômica, na solidez do mercado e asseguram que a alta do preço dos imóveis não deve ser encarada como preocupante, mas sim como consequência do aquecimento do mercado e que, segundo eles, não foge em absoluto da capacidade do comprador, por se tratar de aumento consistente. Todavia, aumentos de cerca de 137%, como os verificados ultimamente em determinados bairros do Rio de Janeiro, mesmo em função da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2116, não deixam de ser motivo de preocupação para os analistas de mercado.
As fusões e aquisições complementam o cenário, e por estarem sendo mais frequentes que o habitual – embora aguardadas – já não geram mais um grande frisson, como antes acontecia e passam a ser recebidas com muita naturalidade pelo setor, vistas como um processo rico e extremamente salutar para a consolidação do mercado imobiliário. Sinal dos tempos, em que as empresas se consideram players sempre sondando novas aquisições, uma fatalmente de olho na outra.
Se o importante é seguir em frente, igualmente importante é fazê-lo com a devida cautela. Como em tudo na vida, devemos buscar concretizar nossos sonhos, mas não podemos, por precipitação e falta de planejamento, transformá-los em pesadelos. E esse conselho vale para todos os envolvidos no processo de expansão imobiliária, não só para os compradores.
Texto - Virgínia Duailibe - Twitter @v_duailibe
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